Com o recorde de recuperações judiciais e desafios externos, o agronegócio brasileiro enfrenta uma encruzilhada. Saiba como a reestruturação e a postura dos credores definem o futuro.

O agronegócio brasileiro, um dos pilares fundamentais de nossa economia, encontra-se sob uma pressão financeira sem precedentes, navegando por um cenário de alta complexidade. Os indicadores recentes sinalizam um período de intensa dificuldade, que exige uma compreensão aprofundada e a adoção de estratégias eficazes.

Um dos mais alarmantes desses indicadores é o crescimento exponencial nos pedidos de recuperação judicial. Dados da Serasa Experian revelam que, somente no primeiro trimestre deste ano, foram registradas 389 solicitações, um aumento de 44,6% na comparação anual. O aumento é especialmente notável entre produtores rurais pessoa física, que somaram 195 desses pedidos. Essa escalada é atribuída a um momento financeiro complexo, oscilações nos preços das commodities e uma oferta de crédito mais rígida, fatores que pressionam o caixa e reduzem as margens do setor¹.

Paralelamente, o agronegócio enfrenta novas barreiras comerciais. A recente imposição de uma taxação de 50% pelo governo americano sobre produtos brasileiros, mesmo com exceções, impacta itens cruciais como carne bovina, café e frutas. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) manifestou grande preocupação, calculando que a nova tarifa, somada à existente, poderia elevar a carga tributária a um patamar superior a 76%, o que tornaria as exportações inviáveis para um mercado que importou 229 mil toneladas de carne brasileira em 2024. As estimativas apontam para uma perda potencial de 1 bilhão de dólares para o setor até o final de 2025, enquanto segmentos como os de frutas e café intensificam negociações para mitigar prejuízos².

Diante deste cenário de custos elevados, acesso restrito ao crédito, preços voláteis e entraves comerciais, torna-se imperativo que o produtor rural e as empresas do agronegócio busquem e compreendam os caminhos para uma reestruturação financeira eficaz. Este artigo visa desmistificar as ferramentas disponíveis – mediação, recuperação extrajudicial e recuperação judicial – apresentando-as como instrumentos estratégicos e fundamentais para a preservação e continuidade da atividade rural brasileira.

Reestruturação de obrigações: por que produtores recorrem a estas ferramentas?

O expressivo aumento nos pedidos de recuperação judicial e a busca por soluções extrajudiciais não são um reflexo de má gestão individual do produtor rural, mas sim uma resposta estratégica e, muitas vezes, inevitável, a uma crise sistêmica que foge ao seu controle. O produtor, que por natureza é resiliente e busca soluções, se vê encurralado por uma combinação de fatores externos que minam sua capacidade de honrar os compromissos assumidos.

Imagine a situação: o produtor rural investe pesado na safra, com custos de insumos (como fertilizantes e defensivos) em alta, muitas vezes financiados com juros elevados. Subitamente, o mercado desaba, e o preço do produto na hora da colheita é muito menor do que o esperado. Ou pior, uma nova tarifa de exportação surge, inviabilizando a venda para um dos seus principais mercados, como aconteceu com a carne bovina e o café para os EUA. Eventos climáticos adversos, como secas prolongadas ou enchentes, podem devastar sua produção, tornando impossível gerar a receita esperada.

Nesse contexto de desequilíbrio econômico-financeiro forçado por fatores macroeconômicos e geopolíticos, o produtor rural, mesmo com uma atividade viável e produtiva, perde o controle sobre o fluxo de caixa e começa a ter dificuldades para cumprir suas obrigações. A essa já complexa equação, soma-se o papel crucial das instituições financeiras. A tendência observada de maior seletividade na concessão de crédito ao agronegócio e a postura mais rigorosa em relação à inadimplência levantam um debate importante sobre a parceria entre credores e produtores.

Para enfrentar o aumento da inadimplência no agronegócio, as instituições financeiras podem adotar duas estratégias cruciais. A primeira é aprimorar seus departamentos de reestruturação para criar, em conjunto com os produtores, soluções de dívida flexíveis e mutuamente benéficas, evitando assim medidas como recuperações judiciais ou a consolidação de propriedades. A segunda, caso a negociação direta não seja viável, é facilitar a cessão ágil dos créditos a terceiros. Essa abordagem permite que a instituição transfira o risco e melhore seu balanço, ao mesmo tempo que possibilita ao novo credor oferecer ao produtor rural uma negociação mais adaptada à sua realidade, prevenindo o aprofundamento da crise no setor.

É exatamente para cenários como esse – onde a crise sistêmica se une a uma possível rigidez dos credores – que as ferramentas de reestruturação foram criadas. Elas oferecem um caminho legal para que o produtor possa reorganizar suas dívidas, ganhar um fôlego financeiro e, o mais importante, manter sua fazenda produzindo.

A principal justificativa para usar essas medidas é a necessidade de preservação da atividade empresarial e organização das obrigações. Ao iniciar um processo de reestruturação, o produtor rural alcança uma proteção crucial para reequilibrar suas finanças e garantir a continuidade da produção.

Mediação: o acordo amigável para reorganizar obrigações

A mediação surge como uma ferramenta proativa e colaborativa para reestruturar obrigações antes que o desequilíbrio se agrave. Trata-se de um processo voluntário e confidencial, no qual um terceiro imparcial, o mediador, facilita o diálogo entre o produtor e seus credores. Funciona como uma conversa guiada por um profissional neutro que ajuda as partes a chegarem a um acordo justo para renegociar suas dívidas. As partes se reúnem com o mediador para explorar alternativas de pagamento, prazos e condições, buscando uma solução que seja mutuamente benéfica e viável para a fazenda, com foco em construir uma saída para o futuro que permita a continuidade do negócio.

Os benefícios para a reestruturação de obrigações incluem a flexibilidade na negociação, que permite criar soluções personalizadas para cada dívida, adaptando-as à real capacidade de pagamento da propriedade rural. Além disso, a mediação favorece a preservação do relacionamento, pois ao negociar de forma consensual, o produtor mantém a confiança com fornecedores e instituições financeiras, essencial para futuras operações e obrigações. Por fim, previne litígios, evitando que as obrigações não cumpridas se transformem em processos judiciais custosos e demorados, que podem gerar mais dívidas e desgastes.

Recuperação Extrajudicial: a formalização do acordo e a imposição para alguns credores

Para o produtor rural ou a empresa do agronegócio que já tem um plano de reestruturação em mente e a adesão de parte de seus credores, a recuperação extrajudicial é uma forma eficiente de formalizar e dar segurança jurídica a esses acordos de obrigações. Ela consiste em um acordo de renegociação de dívidas que se celebra diretamente com os principais credores, sem processo, mas que pode ser levado as vias judiciais para impor os seus termos aos eventuais credores discordantes. Em síntese, o produtor elabora uma proposta de reestruturação para um grupo específico de dívidas e credores. Uma vez que se alcança o quórum legal de credores anuentes, o plano pode ser homologado judicialmente, tornando-o vinculante para todos os credores submetidos a ele, inclusive aqueles discordantes.

Em termos de benefícios para a reestruturação de obrigações, destaca-se o controle sobre a reestruturação, pois o produtor tem maior autonomia para definir os termos de como suas obrigações serão reorganizadas. Há também a rapidez na homologação, já que por ser um acordo prévio, o processo judicial é simplificado, garantindo que a reestruturação das obrigações se torne efetiva mais rapidamente. Por fim, a eficácia legal da homologação judicial confere ao acordo amplos efeitos, vinculando todos os credores submetidos a ele, inclusive aqueles credores discordantes.

Recuperação Judicial: a reestruturação completa sob amparo legal

A recuperação judicial é a ferramenta mais abrangente para reestruturar a totalidade das obrigações e permitir que empresas e produtores rurais em crise financeira, mas com viabilidade de negócio, possam se reorganizar de forma completa e protegida. O aumento notável dos pedidos de recuperação judicial por produtores rurais pessoa física demonstra a crescente necessidade dessa ferramenta para reequilibrar as contas em um cenário adverso. Ela se define como um processo legal onde a fazenda ou empresa, mesmo com dificuldades financeiras, busca a justiça para renegociar todas as suas dívidas e manter a produção.

Seu funcionamento ocorre da seguinte forma: o produtor protocola um pedido judicial, que, se aceito, suspende a maioria das cobranças e processos de execução contra ele por até 180 dias (o “stay period”). Durante esse período, ele elabora um plano detalhado de como vai pagar suas obrigações, que será votado e, se aprovado, seguido sob supervisão judicial por até dois anos.

Os benefícios para a reestruturação de obrigações são consideráveis. Há a suspensão abrangente das execuções, o que é o benefício mais crucial, pois todas as ações de cobrança, bloqueios e penhoras sobre as obrigações são paralisadas, dando ao produtor o fôlego necessário para se reestruturar sem a pressão imediata dos credores. Permite também a reorganização global das dívidas, consolidando todas as obrigações em um único plano, facilitando o gerenciamento e a negociação de prazos, juros e até mesmo descontos, adequando-os à nova realidade financeira. Por fim, garante a blindagem legal e manutenção da produção, pois a proteção judicial assegura que o produtor possa focar em sua atividade principal – a produção – sem o risco iminente de perda de bens essenciais para o trabalho, assegurando a função social do agronegócio.

Um futuro sustentável para o campo

O cenário atual do agronegócio, marcado por pressões econômicas e comerciais sem precedentes, torna a reestruturação financeira uma necessidade estratégica e urgente. O aumento dos pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais é um reflexo claro de que os desafios atuais exigem mais do que as abordagens tradicionais, demandando soluções que ofereçam um verdadeiro fôlego financeiro e operacional.

Como visto, ferramentas como a mediação, a recuperação extrajudicial e, de forma mais abrangente, a recuperação judicial, são mecanismos legais poderosos que permitem ao produtor rural não apenas reorganizar suas obrigações financeiras, mas também proteger seu patrimônio e, crucialmente, garantir a continuidade de sua atividade produtiva. A capacidade de suspender execuções, criar uma mesa de negociação única e preservar o negócio são benefícios essenciais que essas ferramentas proporcionam, permitindo que o produtor, mesmo diante de fatores externos adversos e de uma possível inflexibilidade dos credores, possa reequilibrar suas contas e voltar a crescer.

Nesse contexto, a postura das instituições financeiras é fundamental. É imperativo que os credores aprimorem seus departamentos de reestruturação e considerem mecanismos ágeis de cessão de crédito, agindo como parceiros na busca por soluções sustentáveis para os produtores em dificuldade. Essa colaboração pode mitigar a necessidade de judicialização e fortalecer a saúde financeira de todo o setor.

A escolha da ferramenta mais adequada dependerá da complexidade de cada caso, do volume de obrigações e da disposição para negociação com os credores. Para tanto, é fundamental que o produtor rural, ao se identificar com os desafios apresentados, busque assessoria jurídica e financeira especializada. Profissionais experientes poderão analisar a situação, identificar a estratégia mais eficaz e conduzir o processo com a segurança necessária. O agronegócio é um setor resiliente e vital para o Brasil; com as ferramentas corretas e o suporte adequado, é plenamente possível superar os atuais desequilíbrios, fortalecer a gestão e assegurar a perenidade da produção rural em nosso país.

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